Lá pelo meio dos anos 90, com uns 12 anos, eu comprava o Homem-Aranha na banca em frente à escola e sentia meu rosto ruborizar a ponto de embaçar os óculos. Gostaria de dizer que isso acontecia por causa da ansiedade de ler as histórias, mas não era: eu ficava vermelho de vergonha de ser descoberto.

Na hora do intervalo, enquanto eu pensava em um jeito de ler a revista sem ser notado, o pessoal da minha sala se divertia fazendo uma roda e rindo das crianças que usavam roupas e tênis de marcas desconhecidas. Na época eu não sabia que isso era viadagem, então achava que o errado era eu. Acabava por passar o dia inteiro pensando no maldito gibi, resistindo bravamente em abri-lo, pelo menos até chegar em casa.
Somente durante o campeonato brasileiro as coisas eram fáceis. Como gostar de futebol era permitido, todos tinham o álbum de figurinhas, e eu não era exceção. Mas o meu álbum não era apenas um lugar para colar figurinhas, e sim um escudo perfeito para o que interessava: os quadrinhos. Era atrás daquele livro ilustrado, sob os olhares de reprovação de Toninho Cerezo, que eu conseguia ler o Aranha – mal podendo acreditar que estava fazendo aquilo em público, impunemente e à luz do dia.
Antes que alguém pergunte alguma coisa, deixa eu contar uma história rápida. Um dia, uma criança que eu não conhecia imitou o Lion gritando “Thundercats! Ôôôô!”, e os amigos, diante de tamanha afronta, acabaram por jogá-la no lixo – juro, era uma lixeira grande e azul. Pior do que o fato de na época ainda não existir coleta seletiva era o detalhe de que o sujeito devia ter uns dois anos a menos que eu.
E assim fui crescendo, passando de ano no colégio, e me formei na faculdade. E em algum momento que não consigo determinar, ler os quadrinhos deixou de ser vergonhoso. Virou cool. Na fila para alguns filmes de super-heróis que são tão ruins que nem eu tenho coragem de assistir, estão os mesmos caras que eu sabia que me jogariam no lixo se eu desse a chance.
Na faculdade, vi que meu conhecimento de quadrinhos era respeitado. E quando ainda tentava digerir isso, percebi algo ainda mais horrendo:
Atualmente, tem gente tentando se passar por
nerd pra conseguir
garotas!
Sem mais palavras.
Ao lado de outros senhores que, tenho certeza, já sentiram medo de ir pro lixo ao menos uma vez, criei esse site para ser, além de um banco de críticas e resenhas do mundo pop, o diário de uma geração perdida. Ou talvez morrer antes dos 10 posts iniciais.