
Em várias entrevistas, o editor já havia deixado claro seu desejo de acabar com casamento de Parker e MJ, alegando que a queda de qualidade das histórias nos últimos anos era culpa do matrimônio. Por um lado ele não deixa de ter razão, já que os roteiristas recentes (principalmente na própria era Quesada) criaram um dia-a-dia insuportavelmente enfadonho para o casal, que não discutia, não saía de casa, não brigava e se amava acima de qualquer coisa.
Mas se olharmos um pouco para trás dá pra ver por que a idéia não faz sentido. Voltemos por exemplo à aclamada fase de David Micheline e Todd McFarlane em Amazing Spider-Man (na minha opinião uma das melhores de todos os tempos), na qual o casório não só não atrapalhava, como era o alicerce do título.
Naquele tempo - em que remorso era a única coisa que Gwen Stacy tinha colocado na cabeça do herói - o relacionamento dos dois tinha uma penca de problemas. Voltado todo o tempo para a ameaça do Venom, Peter ainda tinha que lidar com sua incapacidade de ajudar a esposa, ao passo que Mary Jane, cada vez mais solitária e carente, via sua carreira na tv ir por água abaixo enquanto sofria na mão de produtores canastrões. Os dois também não tinham muito dinheiro, e as tentativas de ambos de crescerem profissionalmente para pagar as contas eram muitas vezes a parte mais interessante das histórias. E, mesmo com todos os revezes, nós sabíamos porque eles continuavam juntos: porque os bons momentos compensavam tudo.
Não era preciso ser gênio para entender por que Micheline trabalhava tão bem o personagem. A maneira com a qual ele conduzia as tramas era simplesmente uma evolução da perfeita fórmula original de Lee e Ditko: um herói cujos maiores problemas apareciam quanto tirava o uniforme. O que ele fez foi apenas incluir MJ nisso. As histórias eram ótimas porque o relacionamento era palpável, real, cotidiano, e era isso mais uma vez o que distinguia o Aranha dos outros heróis: a identificação.

Antes de mais nada, os dois tinham ambições, e se viravam como podiam para chegar a algum lugar melhor. Um sujeito realizado em todos os aspectos pode ser bem feliz, mas sem dúvida acompanhar o dia-a-dia desse cara não deve ser um negócio muito divertido. Pois esse era o Homem-Aranha dos últimos tempos, membro dos Vingadores. A esposa e a tia estavam totalmente protegidas, morando em um palácio, com qualquer (qualquer mesmo!) coisa ao alcance. Todos tinham virado milionários de repente. Então, tudo o que o herói tinha que fazer era sair atrás de bandidos, dar uns sopapos e voltar para casa, com a certeza de que tudo estaria bem. E claro, houve o terrível erro da identidade revelada, tão irremediável que parece ter sido o estopim para que Quesada, como uma criança que percebe tardiamente que seu desenho ficou ruim e rabisca tudo por cima, decidisse apagar tudo por mágica.
Explicando rapidamente, Mefisto, que não se sabe por onde andava, fica nervoso com a beleza da união do casal e decide separá-los a qualquer custo. Com a vida da Tia May nas mãos, ele faz uma proposta a Peter: o preço para a velha viver seria ele abrir mão de MJ para sempre. E assim foi feito. O vilão, que arranjou poderes maiores que o Beyonder, reconfigurou toda a realidade em que vivemos para que os dois não estivessem mais casados. E pronto! Acabou-se o problema. E ainda há uma nova possibilidade: a ruiva surgirá como uma heroína, Jackpot (uma "homenagem" à clássica frase "Face it, Tiger... you just hit the jackpot!", dita por ela quando os dois se conheceram).
Eu fui alfabetizado lendo o Homem-Aranha, e, quando moleque, me acostumei a lê-lo como se realmente aquelas histórias estivesem realmente acontecendo em algum lugar. É claro que de vez em quando uma decisão editorial estapafúrdia me lembrava de o que eu lia com tanta vontade era apenas um meio de um pessoal ganhar dinheiro. E isso nunca foi problema. A diferença dessa vez é que agora está escancarada a falta de capacidade das pessoas que têm o personagem nas mãos. A única maneira que encontraram para justificar os erros que eles mesmo cometeram foi... apagar o que fizeram, sem qualquer preocupação de dar uma justificativa palusível, que levasse os leitores a continuarem "comprando" a história.
É nesse cenário que o roteirista Dan Slott assume Amazing Spider-Man. Slott mostrou na sua recente série da Mulher-Hulk que seria um cara mais do que competente para escrever o Aranha, e provavelmente pode fazer coisas boas com o título.
Mas pra quem estiver lá para ver, porque eu não vou.